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Mostrando postagens com marcador A barata e outros contos da moça. Mostrar todas as postagens
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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Ser digital

 

Pela manhã, no banho, a água lhe escorreu pelo corpo sem indicar caminho algum. Nenhuma combinação de roupas delineou a exata extensão de sua alma. Os dedos nas teclas desenharam telas, abriram e fecharam janelas. Era apenas o tempo: o dia seria quente, embora fosse inverno. Começaram as restituições de imposto de renda. Há linhas de financiamento de crédito para taxistas. O dólar ainda vale o dobro. Trânsito obstruído. Nova obstrução no intestino do vice presidente da repúplica. Senhora de si, selecionou e excluiu as piadas, correntes e publicidades. No MSN, um amigo diz que postou um novo texto e pergunta se ela já leu. Www.blog.... Não consegui registrar o endereço, ela já está diante da crônica do amigo. Posso somente lhes assegurar que era qualquer coisa sobre solidão. Esperançosas de tocar o Outro, digitais ensaiam esquisito balé sobre o touchpad. Acusado de corrupção o presidente do Senado cita Sêneca: “a injustiça só pode ser combatida com três coisas: o silêncio, a paciência e o tempo”. Lamento não ter conhecido a frase noutra circunstância. Agora o som de uma banda da banda que é umbanda/outra banda da banda é cristã, é kabala, é koorão. Outros querem ser tocados no Skype, Facebook, Orkut, Leskut,Twitter... Morrem mais seis pessoas no país vítimas da gripe H1N1. Off-line. Desligar.

Então, o café, o leite, o pão. Antes de sair, a fruta. O sumo cítrico irriga e apaga o digital. Abre a porta. Realidade só.

Priscila Santos

domingo, 21 de junho de 2009

Nota

Comia chocolates enquanto as buzinas tentavam hipnotizar a chuva, crendo ser a voluptuosidade do líquido vertical a verdadeira causa do cessar. Os faróis traduziam sua fadiga num longo piscar que se derramou por toda a imensa fila de carros e, quanto mais os motoristas pisavam no verbo, mais a imobilidade se instaurava. Desejava não estar ali, mas não fora possível sair em outro horário.Uma longa nota-não-executada num dado momento do dia ressoava ainda.
Enquanto o cacau derretido perdia-se entre os pelos gustativos de suas papilas, seus ouvidos continuavam atentos.Ela procurou a nota no bramir do teto metálico agredido pelas gotas espessas; no escorrer regular intermitentemente interrompido pela borracha do para-brisa. Não estava lá. Procurou no barulho do portão automático que revelava a garagem, no apito do alarme; ainda não estava lá.
Despertou do rumor das roldanas que a elevava graças ao solavanco e ao ranger da porta. Não encontrava a nota no tilintar das chaves, nem no giro dos botões do fogão, nem no roçar do garfo e da faca .
Quase enxergou a nota no dispersar sinuoso da fumaça que parecia dotá-la da capacidade de aparar todas as arestas, de explicar a chuva, de encontrar seu lugar entre prédios e esquecimentos.A nota delineava-se no vazio quando o telefone tocou imperativo.Retirou o aparelho da base, foi ao banheiro: “Alô” – enquanto o algodão da calcinha deslizava em suas coxas .Convidada pela chuva, que ainda caía, a urina tocou a branca e fria louça. “Primeiramente, gostaríamos de agradecer, senhora, por nos conceder a imensa satisfação de tê-la como cliente...” “Chiiiu!” – respondia ela para a urina, estendendo seu indicador sobre os lábios do mundo num pedido encarecido de silêncio. “Se a senhora tivesse trinta mil reais, a senhora saberia o que fazer com esse dinheiro?” “Hum ... humm”. “Então, economizando apenas um real e sessenta e cinco centavos por dia, a senhora pode... Senhora? É muito um real e sessenta e cinco por dia?”. O ronco das barrigas diariamente privadas de um real e sessenta e cinco centavos ecoou, mas não teve forças para argumentar e disse apenas “acho”, frustrando a expectativa do operador de telemarketing que fingiu não entender e insistiu “Com o título de capitalização...”.Ouviu ainda as últimas gotas de sua urina. Busca inútil.
Prendeu o telefone entre o ombro e a orelha para desenrolar o papel higiênico e a nota girou em sentido contrário desenhando no branco pontilhado o momento da não-execução: Era dia do rodízio de seu carro, então o deixou no estacionamento do metrô mais próximo a fim de pegá-lo à noite. Seguiu seu caminho utilizando o transporte público como sempre fazia às quintas-feiras. Naquele dia teria de trabalhar até mais tarde, fato este que contribuiu para a pontualidade de seu mau humor. Seu dia de trabalho, obedecendo ao princípio da mediocridade, não foi nem mais nem menos pior que os outros. As horas é que irritavam, aquele estender sem fim. Com tantas horas extras talvez pudesse fazer um título de capitalização.
Trabalhara doze horas, comera mal e dormiria pior ainda, sozinha. Há tempos o suor de um homem não regava seus poros e por isso ultimamente o desejo brotava mais vigoroso.Quando saiu do ar condicionado, percebeu que do lado de fora as condições eram outras, chovia. O guarda-chuva havia ficado no carro, todos os colegas já tinham ido para casa. Podia esperar a chuva passar, mas não havia sinal de que a trégua viria tão cedo.Correu dificultosamente sobre seu salto. A estação não era distante.
Os grossos pingos da chuva bolinaram seus seios insinuando as aréolas através do claro tecido. Ao chegar na estação e dar por isso cobriu-se com a maleta impermeável em que levava seu notebook. Pelo menos àquela hora era menor o número de usuários, se entregou ardentemente ao cansaço, de modo que abandonara sobre o colo a maleta e, alguns minutos depois a lembrança da blusa molhada a fizera acordar de sobressalto. Notou então, que o homem que sentara ao seu lado a olhava. Incomodou-se, recolocou a pasta sobre os seios e recuou no banco.
O sujeito não se intimidou, sacou do bolso de sua calça social uma belíssima carteira de couro e começou a conferir de modo extravagante o extrato bancário.Entre uma conferência e outra lançava olhares para ela. O homem continuou o jogo de sedução guardando vagarosamente o extrato e exibindo os inúmeros cartões de crédito.Levantou-se, retirou as chaves do bolso como quem anuncia uma sentença. E ela se sentia culpada, não por arrepiar-se ao imaginar aquela barba varrendo de seu corpo a ausência de vida, mas por perceber que um rapaz que permanecera em pé um pouco mais adiante assistia ao jogo e ansiava saber o resultado. Ela abaixou a cabeça, mas pôde ainda acompanhar o olhar cobiçoso do homem que caminhava a passos lentos em direção à saída. Carregava ainda a esperança de que subitamente ela se levantasse, mas a campainha soou anunciando a não- execução. As portas se fecharam. A nota estava lá.
Agora, abaixava a calcinha para o título de capitalização, sem que os olhos do mundo a vissem e justamente por isso, o mundo se orgulhava dela.

Priscila Santos

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A barata

Era muito cedo para estar dentro do ônibus. Há algo de errado com o funcionamento do mundo. São cinco horas da manhã, “é cedo ainda”. “Só mais cinco minutinhos”, é tempo suficiente para toda uma vida.“Só mais cinco minutinhos e uma falta”.É preciso ter uma boa desculpa para uma falta, é preciso não faltar nunca na vida, é preciso estar com ela todos os dias. Os atrasos também não são permitidos, mas tinham acontecido na semana passada, na retrasada e na outra também.
Os minutos multiplicaram-se. Num salto levanta-se, “não vai dar tempo de tomar banho”. Um banho não limparia o que era preciso, nem o tempo o faria. O tempo possui as faltas que a vida não aceita. O ônibus está vazio: senta-se. E gostando da idéia, as pálpebras superiores sentam-se sobre as inferiores. Não há tempo pra sonhar, mas o sonho não tem tempo e vem: um letreiro amarelo faz doer os olhos, as letras movimentam-se impedindo que se leia. O amarelo do sinal e, logo depois, vermelho. Os carros param e a barata sai do saco de lixo que está junto ao ponto de ônibus, movimenta-se com dificuldade, porém vitoriosa por ter se livrado do aperto fétido e escuro do plástico imundo. Duas de suas pernas estão debilitadas, assim como as da moça que impossibilitada de evitar o atraso observa a barata. Desce vagarosamente do saco, da guia e ganha a rua que é grande demais para uma barata manca. Mas os tempos fundem-se no espaço da barata, da moça, do sinal. Cada pedrinha que constitui a irregularidade do asfalto é, para ela, um obstáculo intransponível. Praticamente só seu lado esquerdo se move, arrasta-se silenciosamente no universo das horas.
O trajeto é curto e o sonho vai. Num salto levanta-se e não é amarelo, vermelho é o sinal “droga”. Olha impaciente, para a direção de onde virá o próximo ônibus do trajeto infindável. Quanta impotência. O letreiro amarelo cruza dura e nitidamente, ela pôde ler o destino que acabara de perder “droga!”.
Desce a passos lentos, atravessa a movimentada avenida, chega ao ponto de ônibus “malditos cinco minutinhos”. Olha para o chão e lá está a barata, a grande culpada por todos os desacertos do tempo. A barata exibe suas pernas mancas como troféus, como se dissesse: “vou chegar ao meu destino há tempo”. Desesperada a moça torce para que o sinal abra, não era possível que aquele ser asqueroso conseguisse chegar vivo até o outro lado da avenida. Pensou em acabar com sua inimiga com um pisão, assim ela saberia o quanto as pernas humanas eram livres, e móveis e capazes de findar aquele insulto com um simples gesto. Mas o sinal poderia abrir e talvez não desse tempo de voltar para a calçada, pois a barata já estava quase no meio da rua. Morrer ao tentar matar uma barata, morrer... Que parte do seu corpo o carro atingiria primeiro? Em que momento ficaria inconsciente? Imaginou seus olhos encontrando o olhar assustado do motorista e se fechando na mesma velocidade em que um fio de sangue escorreria pelo para-brisa para sempre. Não, um carro não a mataria. O sinal não estava tão longe, a velocidade não seria grande, daria tempo de o motorista frear. Já a morte da barata, era certa. Sua insignificância não faria nenhum carro parar. A gosma de sua existência ficaria grudada na borracha preta e veloz.
Mas a desgraçada já passava da metade da pista que constituía uma das mãos da avenida e nada do tempo passar. Cada centímetro percorrido era uma afronta à moça cujo corpo era açoitado pelo ácido fio do tempo, “ela não vai conseguir, não vai conseguir...”. Olho no sinal, no carro, na roda, embreagem, câmbio, acelerador, faixa, pés, fins. Mas nada, só a imobilidade e a possibilidade de que ela chegue. Está se aproximando da guia. Ah! Certamente ela não poderá transpor o espelho que rascunha sua infinita insignificância.
Há uma ilha que divide as duas mãos da avenida, nela estão alguns sacos de lixo apoiados em pequenas árvores. Quantas baratas poderiam sair de dentro deles, três, sete, mil, todas a se mexer num brilho farfalhante de asas que nos esfregaria nas fuças a grande ilusão do poder. Não, ela é uma só e, no entanto, faz doer como se fosse mil. Sua minudência só faz com que pareça cada vez maior. Ainda agora a manca maldita escalou toda a guia, alcançou a ilha e fez-se perder de vista. A moça desacredita, estica o pescoço, chega até mais perto da rua e assim que coloca os pés no asfalto o sinal abre, “se eu correr ainda consigo chegar até o outro lado”. Traída por seus pés, encontra-se de novo na calçada. Agora é realmente impossível saber.
“Foi sorte, da próxima ela não passa”. Estava já decidida a esperar o sinal fechar outra vez para ir até o meio da avenida assistir ao espetáculo do esmagamento que aconteceria na tentativa de atravessar a próxima mão. “Foi sorte, pura sorte”, repetia despeitada. Como pode ser correto que baratas tenham sorte? A toda sorte de gente falta sorte. Para ela só tinha faltado a de acordar cinco minutinhos antes. Quando é antes? Antes é sempre tarde demais.
Antes que o sinal feche, ela tenta atravessar, quase daria tempo. Recua. Não daria àquele inseto o gosto de vê-la estendida no meio da rua. É melhor ter calma quando a coragem surge imperiosa. A sucessão de atos corajosos leva à loucura. É preciso ter coragem para levantar da cama, e pegar o ônibus, e encarar o sol, o vento, o frio, os olhos de toda gente te pedindo calma para acreditar que não há nada de errado no fato de tudo isso receber o nome de vida.
Finalmente, o vermelho. Que cor seria o sangue da barata? Como pode ser sangue de barata, se ela atravessa avenidas furiosamente? A passos lentos a moça caminha até a ilha. Já não tem pressa, desfruta a sensação de possuir uma rua. Todos os carros parados, só por sua causa, por seu desejo poderiam matá-la. Pé após pé, as pedrinhas irregulares do asfalto passam desapercebidas sob a majestade humana. Viva às tecnologias que promovem a diminuição de impacto! Viva ao formato anatômico! Viva aos tênis com amortecedores que podem ser adquiridos pela bagatela de várias manhãs com sono! O pagamento é facilitado, pode ser feito em uma, duas, três vezes... a fim de que se prolonguem as manhãs sem sonho. Mas como recompensa: as pedrinhas da irregularidade asfáltica passam desapercebidas.
Para na ilha ao lado dos sacos de lixo. Procura a barata, não a encontra. Talvez tivesse desistido de atravessar tão inconseqüentemente e resolveu andar pela ilha até a faixa de pedestres para que fossem maiores as chances de sucesso. As baratas estão mais habituadas a fugir de pés, antes eles que as rodas. “Seriam sábias as bichinhas?”. Avaliou o despropósito de seus pensamentos e continuou a procurar. “Onde se enfiou a maldita? Não tenho todo tempo do mundo”. Agradou-lhe a idéia de “todo o tempo do mundo”, afinal que raios seria isso? Ninguém é capaz de dimensionar “todo o tempo do mundo”, é tempo que não cabe em alguém. Imaginou a barata chegando a si empurrando um pacote de presente como um laço rosado e dizendo: “Moça, toma pra você ‘todo o tempo do mundo’”. Mais despropósitos.
“Achei você!”. Ela estava tentando descer a guia, arrastava-se na verticalidade que é domínio das baratas. Estivesse ela na horizontal e o pisão seria imediato. A moça temeu parecer ridícula tirando o tênis para executar seu propósito. Em casa, quando um inseto desses sobe pelas paredes, alguém desprovido do asco que ele costumeiramente causa, saca logo a arma certeira para matá-lo. Tinha asco, mas também tinha ódio. Ia tirar o tênis.Olhou em volta para verificar se alguém a observava e viu o próximo ônibus. Tudo aquilo lhe parecia muito estranho já que o próximo ônibus só viria daqui a meia hora, meia barata ou meia vida.Os ponteiros dos velocímetros marcavam impiedosamente os cinco minutos. Daria tempo de matar a barata, correr para o ponto e não faltar, tudo estaria mediocremente em seu devido lugar: a barata na morte e a moça no ônibus.
Com o tênis na mão dá o primeiro golpe.A barata se enfia numa fenda existente na guia e sai ilesa. “Tudo culpa sua”, grita a moça que desesperada procura uma vareta ou qualquer coisa pontiaguda capaz de tirar a barata daquela fortaleza. Abre um dos sacos de lixo e caça obstinadamente a arma eficaz. Sente um nó na garganta “malditos cinco minutinhos”. Chora. Encontra um palito de churrasco, volta-se para a barata e esta já ganhou a rua. O ônibus já passou pelo ponto. O carro também já passou por cima da barata bem no meio da rua. A moça passou a mão no saco de lixo, recostou a cabeça sobre ele, olhou para a pequena mancha que a barata deixou no asfalto e bocejou sussurrando “só mais cinco minutinhos”.

Priscila Santos

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Areia, mar e Ana

Todos os dias, ao cair da tarde, Ana saía de seu trabalho, pegava o ônibus, descia alguns pontos antes de onde ficava seu pequeno apartamento e ia à praia. Descalçava os sapatos e pisava na areia como quem planta a si mesmo no solo da razão.
A areia sentia a existência de Ana pousar sobre seus grãos que uniam-se formando a imagem exata do espírito da moça. Não havia cubos, impressão ou expressão nos quadros que se formavam. Eram dança de grãos, apenas. Minúcia de movimento que, às vezes, delineava palavras. O mar vinha com suas ondas e abraçava os desenhos e devorava as palavras. Era assim que ele ficava sabendo dos segredos daquela mulher.
Ana não sabia disso. Então, sentava de frente pro mar e lhe falava que o trabalho lhe submergia a alma, que as flores dos vasos de sua sacada insistiam em agarrar-se à terra , que a dor enternecia em seu peito por causa do amor ... Em silêncio, falava-lhe tudo. Ana definitivamente não sabia que o mar, sempre tão ocupado em cantar seus próprios lamentos, não ouvia as vozes provindas dos corações humanos. A areia, fiel intercessora, é quem transmitia ao mar as confidências de Ana.
Um dia, o tormento de Ana desafiou a areia .Os grãos beliscavam-se odiosamente entre si de modo a descompassar espaço e tempo. Assim, as ondas-retinas do mar não conseguiam decifrar as imagens. Ana se desiludira e decidiu entregar-se ao mar, faria dele seu único amor. Queria com ele partilhar todos os momentos do seu dia. Desejou que ele fosse só seu.Então, na tarde seguinte, Ana voltou à praia e trouxe consigo um vidro transparente onde colocou o mar e o levou para casa, para sempre. Andava com o vidro na bolsa, levava-o a todos os lugares, dormia com ele. Com ele fazia amor. Nunca mais voltou à praia, não queria dividir seu mar com desconhecidos, não queria dividí-lo sequer com o sol.
Com o tempo a areia sentiu falta de Ana. Descobriu que gostava de saber seus segredos. Sentia falta das carícias que lhe fazia a sola de seus pés, do molde macio de suas nádegas, de seu corpo inteiro quando em momentos de entrega Ana se deitava.
Num rompante de fúria, a areia odiou o mar. Sempre ele nas canções, nas pinturas, nos poemas, nas contemplações. Sempre o mar. Teve vontade de ser tempestade e num abrupto movimento desaparecer, todos perceberiam que não é possível aconchegar-se por sobre o mar inquieto. Mas, impotente e resignada, calou sua fúria e sofreu a falta de Ana.
Quando já não havia mais esperanças, Ana voltou. Não era fim de tarde, mas madrugada. A praia estava deserta. A moça devolveu o mar ao mar, deitou-se nua por sobre a areia e uma onda veio cobrir as amantes que se fundiram em gozo indissolúvel.

Priscila Santos

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Linha verde

Seu olhar caminhava entre as pernas embaralhadas em jeans predominante. Uns pés conformavam-se nos tênis, outros explodiam nos sapatos. Chegou a pensar que a mulher do sapato verde tinha alguma deformação nos dedos, pois o bicudo calçado empurrava o dedo correspondente ao anelar . Nunca me ocorreu chamar os dedos dos pés pelo mesmo nome dos das mãos. O caso era que o recorte redondo do sapato verde dava ao dedo um aspecto aleijado, como se o corpo todo o colocasse para dentro enquanto o verde curvilíneo o expulsava. O verde retilíneo também expulsa. Todos os dias. Cinco milhões de pessoas. Então, a mulher não tinha cinco, mas cinco milhões de dedos dentro do sapato. Quando se está embaixo da terra não há muito que olhar.Se estamos em pé, a velocidade do nada causa-nos vertigem.De tempos em tempos um sinal e uma parada: mais gente. Afinal são cinco milhões de dedos. Quando se está sentado pode-se ver nos pés a deselegância combinada do sapato boneca com a soquete branca; imaginar o contorno e consistência exatos da nádega negra que se exibe à altura dos olhos.O chão é ainda mais chão quando se está na linha verde. Talvez por isso acreditou ter chegado ao chão de si própria e perguntou o que havia lá. Queria chão, não subsolo.A maquinaria férrea rangia n’alma emprestando-lhe a voz que o mundo sorrateiramente vinha lhe roubando. Ao condutor também faltava voz, às vezes. Nova parada: mais gente. O ar morno e úmido de dentro da lata resfria-se com o desencontrar das portas. Vírus proliferam-se, homens digladiam-se em nome do mover quando o desejo mais pungente é parar, apenas. Movem- se braços e lábios em diálogos inaudíveis. Movem-se involuntariamente os cabelos e tecidos com o sopro veloz do hermético ferro em movimento. Move-se o sapato verde em direção à linha azul. Movem-se enfim as pálpebras revelando-se em consistência de sonho metálico. Estridente, o freio arranca-lhe do sono intenso e diminuto. Ao fundo, confundido ao preto emborrachado, sonha o cão. Não havia percebido o animal até então. Seria permitida a inusitada presença? Carregava no pelo o brilho de quem ignora sem culpa as questões humanas. Parecia até que nem com as questões caninas se importava. Ateve por momentânea eternidade seus olhos no cão. Preocupou-se em saber se não estariam sobre ela outros olhos a inquirir observação tão direta.O que estaria a pensar o dono do cão? Seus pés eram daqueles que explodiam nos sapatos. Não eram verdes, mas pretos como o chão, a calça e o cão. Sua camisa exibia um branco imaculadamente engomado.Talvez por isso em princípio tenha pensado que o cão era apenas uma pasta preta típica dos homens que assim se vestem na linha verde. Este, contudo, não exibia o nó na garganta. Não era possível decodificar o pensar do dono do cão, pois as legendas de seus pensamentos boiavam num branco ainda mais claro que o da camisa. Todos o podiam observar sem medo, visto que seus olhos por não refletir, também não refratavam. Vez ou outra piscavam ensaiando o sono dos cegos. Ela olhou ao redor de si. Nem todos olhavam, mas os que o faziam oscilavam entre a inexplicável simpatia pelo cachorro e a compaixão hipócrita pelo cego. É sempre possível cavar mais fundo.O frêmito do vagão ecoa liquidamente. A erosão é lenta e quando menos se espera o buraco lá está, com seus olhos vorazes a nos engolir. E vomitar : Estação Terminal Vila Madalena.

Priscila Santos