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terça-feira, 15 de setembro de 2009


a fixidez insiste luz
a sombra insiste fluxo
a terra insiste cio
a palavra insiste imagem
e a vida segue fria.

Priscila Santos

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Mágua

A nota líquida
encontra a água-vidro
ressoa...
Estilhaça a imensidão,
apelos escorrem
clamorosamente.
O vão da janela:
abrigo seguro para se perder

Priscila Santos
A língua

A língua dentro da boca dormia
não se movia...
seus olhos papilentos
somente para o céu da boca olhavam.

Quando os olhos e as mãos
a convidaram para dançar,
sonolenta, entorpecida e voluntariosa
a língua disse:
– Imobilidade! –
agiu como em hora
que nos falta palavra crucial.

– Ah! Músculo úmido lambente,
você não é coração
que involuntariamente se faz ouvir,
és subalterna ao desejo meu!

O trabalho incansável tem início
quando olhos e mãos
encontram no corpo do anjo
estendido na cama
o caminho que conduz a um céu
infinitamente maior do que o existente
no universo onde habita a língua.

Então, nos prazeres líquidos e múltiplos
a língua experimenta o frenesi e o espasmo
o gemido e o suspiro
a dilatação da carne... contração!

E a língua jura ser escrava eterna,
aninha-se na boca
e recordando o gosto do céu
em que ainda agora esteve
palpita silenciosa como palavra-coração.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Os varais

no varal do corpo
estendi meus desejos

do varal da sede
recolhi a saliva

no varal da dor
sequei a mágoa

me roçou o vento
no varal da memória

todas as peças ali
tudo oculto e narrado
em meus varais vários

hoje, nada suspendo,
me jogo

já não tenho verdes varais
pra estender a realidade

Priscila Santos

Do alto

Elevo o que de mim é visível
aos outros,
abro a porta.
O espaço é suficientemente pequeno
para que a mediocridade se espreguice.
Dispo.
A luz de todas as janelas
suga meus seios,
mas é nos olhos
que habita o líquido vital.

Priscila Santos

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Os peitos da puta

Sobre a pele branca e flácida
uma bacia de azuis
reflexo incerto de mares
sempre baixos

sentada à margem do mundo
negocia

dedos imersos em fendas
por estrias desenhadas
escavam poesia
dos peitos da puta


Priscila Santos
Idílio

O som do silêncio
explodia lá fora.
Deserto,
o concreto urbano
as observava.

Despidos de gente,
pele em cor
digitais em teia
pêlos em tecido:
corpos costuravam calor.

Com a língua,
pintavam nos lábios
uma
da outra
a tela de luz
onde se embalava
o desejo.

Até que veio
a última ponta do fio
e a última gota de tinta.
O silêncio do som.

Priscila Santos
flash

o vento indiscreto do lugar
estilhaçou o outrora
derramando em seus olhos
a medida exata do passar

duas folhas amarraram no tempo
o começo e o fim do diminuto.

num minuto
todo o espaço movente
revelou-lhe o decréscimo de vida
desarranjado no lusco-fusco dos faróis,
no abismo de Pinheiros fétidos,
na passarela per capta da capital

o esparzir do som
cingiu-lhe as arestas do pensar
antes mesmo que ela chegasse
à outra ponta da ponte; ponto.

Priscila Santos