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sábado, 31 de julho de 2010
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
A bola
Um dia veio a notícia de que não morariam mais ali. O pai foi quem disse. A mãe incrédula não se continha de felicidade, pois não gostava dos vizinhos. Os irmãos ansiavam por um lugar melhor. A menina gostou da notícia mais por atmosfera alheia que por discernimento próprio. Não se incomodava com o barraco, gostava até. Gostava mesmo.
Acharam uma casa duas ruas para cima de onde ficava o barraco. A menina ficou frustrada, pois era a primeira vez que se mudava e ir assim para tão perto não tinha graça. Mesmo assim, gostou da casa, ela tinha banheiro com chuveiro, pia e vaso. Era a primeira vez que desfrutaria desse luxos. Na parede da cozinha havia um céu de flores azuis pintado no azulejo. Maravilhou-se.
Ajudou sua mãe a lavar a casa, escorregou no sabão e se machucou feio. Teve raiva, no chão áspero do barraco nunca escorregara. Aquele lugar poderia não ser bom. Encafifou.
Bom foi o dia da mudança, todas as coisas sendo postas em caixas, as louças cuidadosamente embrulhadas em jornal. Todos os vizinhos bisbilhotavam lá fora. O caminhão já havia partido com os móveis. Agora, era preciso levar a pé as coisas miúdas e delicadas. Miúda a menina era, delicada era ela: a bola. Lembrou que deixara no fundo do quintal o gigante redondo e rosa que ganhou de alguém na barraca de pesca do parque de diversões. Correu. Ela estava lá, perto do pé de amora, ao lado do balanço. A menina ainda não sabia o que era mudança, mas quando abraçou a bola e olhou despedidamente para o quintal percebeu que esta palavra doía. Sofreu.
As irmãs chamaram e ela foi, com todo orgulho, agarrada à bola que mal lhe cabia nos braços. Mudar é preciso mesmo quando dói. O sol estava forte e deixava o plástico fininho ainda mais transparente: um grande holofote rosa iluminava o caminho à nova casa. Talvez lá fosse um bom lugar. Duvidou.
“Essa bola vai derreter”, disse uma das irmãs. Então, a menina acelerou o passo a fim de protegê-la dos impiedosos raios do sol. Chegando à nova casa, tratou logo de arranjar um cantinho seguro para a bola. Todas as crianças que tinham uma bola como a dela, já haviam se descuidado. Só a da menina permanecia intacta. Festejou.
Tudo foi sendo posto em seu lugar. A casa era grande para os móveis parcos. Havia mais espaço do que qualquer outra coisa. A abundância de ar. A menina, embora não tivesse mais idade para isso, dormiria em seu berço, no quarto de seus pais. Ao fim do dia a casa ainda não havia tomado feição familiar, mas era sua nova casa. Realizou.
O quarto em que dormiria parecia um pouco gelado, as paredes brancas não tinham o calor da madeira ferpenta do barraco. Venezianas azuis, piso marrom. Tudo gélido. Era hora de dormir e o sono não vinha, estava arredio, pois não sabia se teria porto seguro na casa nova. Era preciso aconchego para brincar com os sonhos, para brincar com a bola, seu talismã. Nem mesmo o véu que dava ao seu berço ares de realeza fez com que o sono reinasse. A menina pensou que os buraquinhos nele existentes poderia permitir que algo de imaterial invadisse seu reduto de sonhos. Sua mãe já havia, como de costume, lhe dado a benção e fechado delicadamente o véu branco com gotas azuis. Como os anjos não habitariam ali? Mas só por garantia, a mãe ainda lhe disse “Dorme com Deus, minha filha”. Seus olhos boiavam na escuridão, moveu sua pernas compridas e vagarosamente abriu a porta do quarto. Seus pais dormiam já. Foi tateando o desconhecido, sentia a lisa parede. Chegou até a sala, não sabia onde ficava o interruptor. Havia deixado a bola num dos quatro cantos daquele lugar. Uma fresta de lua entrava pela janela, ainda sem cortina. No barraco não havia janelas de vidro, nunca havia visto a luz da noite invadir a casa. Perturbou-se.
Mas graças à intrusa lua que crescia é que pode ver a bola translúcida com seu rosa imperativo: ela era todo o universo. Alcançou-a. Já não tinha mais o barulho duro dos primeiros dias, seu quicar era chocho já, percebeu isso quando , sem querer, a deixou cair. “Talvez ela logo se vá”, pensou. Como aconteceu com a das outras crianças. Viu a sombra do chacoalhar das folhas na parade, parecia que a noite sabia que ela estava fora do berço e aumentou a lua para denunciar a fuga. Tomou o caminho do quarto e, menos tateante e mais assustada, subiu no berço junto com a bola. Conquistou.
Agora conseguiria dormir. Com a bola enroscada às pernas, o berço ficava ainda mais apertado. Quando lhe comprariam uma cama? Estava quase perdida no onírico brinquedo quando a luz que estava na sala fez-se perceber no quarto. O vento uivava agonizante. “Será que vai chover?”. Agarrava-se a esta possiblidade para não concluir que”Esta casa é mal assombrada”. Diversas vezes ouviu suas irmãs contarem histórias de espíritos que voltam para assustar as pessoas. Não sabia muito bem o que eram espíritos, mas devia ser qualquer coisa como fumaças dançantes em forma de gente. Por um momento acreditou estar vendo uma fumacinha roxa que se movia vagarosamente, sem querer ser notada no intervalo silencioso dos tique-taques do despertador. Ninguém ao seu redor. Não sabia quem havia morado ali, morrido ali. Apavorou-se
Tirou a bola das pernas e a comprimiu com força contra seu rosto de modo que o plástico, em sua infinita maleabilidade, tornou-se menina. A luz da lua que entrava pelas frestas da veneziana fez com que a menina visse: a bola era toda espírito. Fumaças rosas dançavam dentro dela ao som de voz de mãe em canção de ninar. Enfim, alento. Sonhou.
De manhã, foi reprimida pela mãe “Deixa de ser porca, menina!Não tá vendo que essa bola é suja!” De fato, quando passou a mão no rosto sentiu a poeira grudada em sua pele, eram as marcas dos beijos que ganhou do espírito da bola. Gostou.
Com o tempo, a casa foi ganhando forma, feição e familiaridade. Os espaços, ocupados de vivência. Ainda faltava colocar muro numa das laterais. Na frente, a mãe plantou rosas rosas, vermelhas, amarelas, brancas e também dálias roxas, beijos multicolores, verdes folhagens, bola rosa. Seu tamanho já estava bastante reduzido, sua forma era flácida como as do tempo desenhado em pele de gente. As rosas já estavam crescidas e agarrados ao caule, espinhos vigorosos exibiam-se. “Vamos brincar de bobinho?”, sugeriu maldosamente a irmã que arrancou a bola das mãos da menina e piscou para a outra irmã que, sem titubear, aceitou a brincadeira. O talismã passava de mão em mão sem nunca chegar à menina. Então, a bola que já tinha experimentado ser menina e espírito quis saber o que é ser flor. Olhos estatelados no ar. Paralisou.
A menina apertou os olhos com força para ter certeza do que via: a sábia bola se aconchegou sobre macios e coloridos beijos. Não fora atraída pela beleza traiçoeira das rosas. Ainda não era hora. Desacreditou.
Depois disso o medo tomou conta da menina, não podia contar apenas com a esperteza da bola. O mundo era muito perigoso. “Tata, coloca a minha bola em cima do guarda-roupa pra mim". Era o melhor a ser feito. Às vezes, sentava na beirada da cama de seus pais e ficava olhando… parecia mais velha, mais murcha, mais triste. Uma crosta de poeira fez morada em sua superfície. De vez em quando a menina pedia para que alguém pegasse a bola e brincava ali mesmo, longe dos perigos. Mas a brincadeira foi se tornando rara e desprovida de graça. A menina agora estava encantada com uma boneca que havia ganhado de sua irmã mais velha. Desmemoriou.
Num domingo, chegaram as primas, todas maiores que a menina e como a maioria das meninas maiores, elas eram chatas. Cismaram com a bola. “Vamos brincar de bobinho!”. O coração da menina apertou. “Não”. A mãe percebeu o atrito e foi até o quarto ver o que acontecia. Subiu numa cadeira e jogou a bola no chão dizendo à filha que não fosse rediqueira e deixasse as primas brincar. “Bola não foi feita pra ficar guardada”, arrematou a mãe. Emburrou.
A menina esperou a mãe sair do quarto e pulou furiosamente em cima da prima que estava com a bola nas mãos, arrancou-lhe o tão estimado objeto e com ele se enfiou num vão entre a cama e o guarda roupa onde sempre se escondia. Abraçando a bola também com as pernas, a menina se deu conta de que crescera na mesma proporção que o brinquedo havia murchado.Tudo lhe sobrava. Esticou.
As primas puseram-se a fazer chacota da ira infantil: "Deixa o bebezinho agarrado na bola". "Olha parece uma rã!” A menina não se movia. Então, uma das primas ardilosamente: “Você sabe o que tem dentro dessa bola?” Silêncio. “Ela era bem maior antes, não era?” Porque tinha mais espíritos. Mas, como sua prima sabia? “Mais ou menos”. “Você sabe porque as bolas de parque são tão grandes?”. “Não”. “Elas têm um segredo”. “Que segredo?” “Dentro delas tem um filhinho.” Da bola só podia nascer filha. “Mentirosa!” “É verdade”. “Mentira, eu já vi as bolas das outras crianças furar e não tinha nada”. “Ah! mas o segredo não aparece pra qualquer um, ele só aparece para quem sabe que ele existe.” “Ele aparece pra você?” “O da minha pareceu pra mim, o da sua vai parecer pra você, se você fizer uma coisa…” “O que?” “Você mesma tem que furar sua bola.” Milhares de cores se dissipariam no ar. Talvez a bola realmente tivesse uma filha. “Você pensa que me engana?” “Tá bom! não quer ver o segredo, não veja!” “Tá, mas como é que vou fazer?” A prima revirou a caixinha de costura que estava no quarto . “Toma, fura! Só funciona se for você mesma”. Então, temerosamente a menina furou. A explosão dos risos das primas encobriu o doloroso vento que saía da bola. “Rá, rá, rá, rá, rá, rá!” Não viu nascer a filha do ar. Chorou.
sábado, 19 de setembro de 2009
As palavras lançam clarões sobre o mundo, mas quando se é pequena, a luz cega:uma coisa não quer dizer só uma coisa, é preciso que o ar seja domado por dentes, língua e lábios para que o som se desenhe exato. É difícil se apropriar do mundo e fazer-se entender por ele. Junto com as palavras vêm as pessoas, ou será o contrário? Pessoas das quais ela nunca ouviu uma palavra sequer, eram um poço de mistério. Como aquele velhinho que mancava, pai do seu Artino, tinha um chapéu de feltro esverdeado e encardido, usava bengala e a única coisa que ela vira sair de sua boca era o repugnante movimento da dentadura. Certamente se tratava de um monstro. Será, que se algum dia o tivesse ouvido falar se convenceria do contrário?
Vó Audócia ela ouvira diversas vezes e duvidava um pouco da sua condição de bruxa. Talvez fosse má só às escondidas. Todas as crianças da rua gostavam da negra senhora que também usava dentadura, mas a dela não mexia dentro da boca. Às vezes, quando Audócia aparecia sem a dentadura, sua boca ficava murchinha e a menina chegava a se convencer de que ela não era bruxa coisa nenhuma. Pagava doce às crianças, pedia para lhe buscarem cigarro e dava-lhes o troco. Paçoquinhas, corações de abóbora e batata. Como era bom girar o baleiro de vidro, ouvir aquele ranger chacoalhante e colorido das balas e rodar a tampinha de alumínio embaçado pelos dedos sujos das crianças...Infinidade de doçuras.
Não, definitivamente, alguém capaz de proporcionar alegria tão singela não poderia ser bruxa. Mas é que vó Audócia usava sempre aquele roupão roxo em conjunto com aquelas chinelas de pano no mesmo tom, que lembrava as cores do velório de um vizinho, o caixão era de um roxo brilhante igual ao do roupão da vó Audócia. Além disso, a vó comia inçá. Está certo que era divertido caçar os bichinhos: Todas as crianças pegavam varetas compridas e finas e saquinhos plásticos, iam para um grande campo de futebol de terra vermelha, enfiavam as varetinhas nas casinhas dos bichinhos e voltavam com dezenas de insetos para o gosto da vó Audócia. Como recompensa, recebiam dinheiro para o doce.As cabeças dos insetos eram arrancadas e suas bundinhas eram fritas em óleo bem quente, o cheiro era insuportavelmente forte. Depois, misturadas com farinha de mandioca serviam ao paladar da vó que comia com as mãos. Comer aquelas formigas só podia ser coisa de bruxa! Sem contar que por diversas vezes vira no fundo do quintal da velha bonequinhos com agulhas espetadas.
Mas ela não falava como bruxa e as palavras, vou te contar, as palavras confundem a gente, principalmente gente miúda. Certa vez, um amigo de seu pai passava na rua perguntou a ela:
– Tudo bem?
E ela que estava verdadeiramente envolvida com uma questão prática que lhe atormentava respondeu com a sinceridade que convém a uma criança:
– Não, a calcinha da Xuxuca arrebentou?
O homem, ao vê-la com uma boneca na mão ignorou o problema. Ele não perguntara se estava tudo bem? Ela respondeu.
As palavras são realmente muito complicadas. As pessoas dizem o que não querem dizer e não dizem o que querem ou, pensam dizer uma coisa quando na verdade dizem outra. É muito difícil fazer-se entender.
Naquela noite estava com uma de suas irmãs na casa de uma vizinha que se chamava Mônica, na sua concepção este nome não podia pertencer à amiga de sua irmã, pois já pertencia a uma certa boneca dentuça muito famosa, mas parece que os adultos não entendiam isso. Para a menina, o fato da amiga da sua irmã ser dentuça não era mera coincidência.
Aliás, os nomes das pessoas são palavras que para as crianças trazem em si alguns mistérios, por exemplo, não tem o menor cabimento uma criança ter na infância o mesmo nome que terá quando adulto, pois para uma criança é muito claro que é incoerente um adulto se chamar Gisele ou Gustavo. Tamanho foi o susto da menina ao descobrir que seu nome a acompanharia pelo resto da vida. Não era possível, outros amiguinhos pensavam como ela, inclusive, brincavam de escolher os seus nomes para quando ficassem velhinhos, é óbvio que nomes como Ana ou Antonio combinam muito mais com “Dona” e “Seu”, porque afinal de contas, não era assim que seriam tratados?
Bem, voltando àquela noite na casa da Mônica (atenção, a amiga e não a boneca!), mais um nome veio se meter na vida da menina. Estava ela sentadinha num canto da cozinha medindo seu alcançe sobre o mundo, dizendo em voz baixa o nome de tudo que ali estavam: mesa, cadera, chão, tapete, amário e...
– Ô Tata, lá em cima como é que chama? Disse a menina apontando o dedo para o teto da casa.
A irmã olhou sem muito interesse, pois conversava sobre algum namoradinho com amiga adolescente, e secamente respondeu:
– Telhado.
Enquanto Mônica respondeu ao mesmo tempo:
– Teto.
– Telhado ou teto? - Indagou a menina.
– Os dois! Responderam as adolescentes.
E a menina continuou a listar: telhado, teto, alto, céu...
– Ô Tataaaa! Céu é teto ou telhado?
– Como assim menina?
– O nome do céu é teto ou telhado?
– Céu é céu, teto é teto e telhado é telhado!
Como ainda não dominava as palavras complicadíssimas, calou-se e continuou a listar: geladera, fugão, panela, pia, copo, plato, pato, não, não esse é bichinho...
– Tata, como é que fala o nome daquilo mesmo?
– Ai que saco! Daquilo o quê?
– Ali ó, em cima da pia, aquilo que a gente come nele.
– Prato.
– Ah! Prato.
E continuou: janela, tornera, póta, gatu...
– E aquele bichinho ali em cima da geladera?
– Mônica, fala com ela que eu já tô perdendo a paciência!
– É um pingüim, pequena. Agora brinca aí quietinha pra gente poder conversar, tá bom?
Ao lado do pingüim a menina descobriu algo, coberto por uma capinha rosa xadrez. Levantou-se, aproximou-se da geladeira e começou a pensar no que seria aquilo, será que era um outro pingüim? Ou seria algo que sentia frio, pois estava coberto, ou estaria coberto porque ninguém podia ver? Certamente, se perguntasse à sua irmã novamente levaria uns petelecos. Então, arrastou vagarosamente a cadeira, subiu com alguma dificuldade e quando suas mãozinhas tentavam tocar o misterioso objeto. A mãe de Mônica chegou na cozinha e segurou a menina em seu colo dizendo:
– O que vocês duas estão fazendo aqui que não tomam conta da menina? Quase que ela despenca no chão!
As moças olharam surpresas e não disseram nada. Enquanto a menina insistia no seu intento:
– Dona Cida, como que chama o nome daquilo ali ó?
– Onde?
– Ali, em cima da geladera.
– Eu já falei que é pingüim. Interferiu Mônica.
– Não, o outro!
– Qual?
– Ali, de ropinha cor de rosa.
– Ah! É o LIQUIDIFICADOR! Agora vai brincar e não suba mais em nada porque é perigoso. E vocês, fiquem de olho nela que eu vou ver a novela.
Ninguém tirou a capinha para que ela pudesse ver. A menina sentou no mesmo cantinho e ficou tentando decifrar o que seria aquele objeto de nome tão difícil e por várias vezes tentou repetir dizer: liquidor, ficador, quificador...
Foi com sua irmã para casa, dormiu e acordou com aquela palavra na cabeça. Brincou, comeu e aquela palavra não lhe saia da cabeça. Vó Audócia pediu para ela ir lhe comprar cigarros. A menina ganhou o troco como de costume, mas antes de ir comprar doces não resistiu e perguntou:
- Vó, o que é quificador?
- O coração, minha filha, o coração é que fica dor.
domingo, 2 de agosto de 2009
Ariana estava no céu. A escada era alta demais e por mais que a menina chamasse:
- Vem brincar, vem!
Ariana não respondia, seus gritos desciam os degraus chegando ao ouvido da menina que não entendia porque a amiga se recusava a brincar.
Por várias vezes se esconderam embaixo da escada, eram mães das bonecas, mostravam a língua para as meninas chatas da rua... Mas Ariana não queria nada. Sua avó lhe ofereceu um copo de água com açúcar, ela também não quis. A menina ficou com vontade, mesmo imersa em sua preocupação teve tempo de imaginar como devia ser gostoso água com açúcar. Ariana recusou e permaneceu ali, sentada no alto da escada gritando dolorosamente.
A menina teve medo de se aproximar, o jeito da amiga a deixava assustada. Sentou-se na outra extremidade da escada e ficou tentando achar alguma coisa que fosse capaz de atrair Ariana e fazê-la feliz outra vez, como nas tardes em que as duas rodavam no balanço até ficarem tontas. Uma torcia a corda para a outra e viam o mundo girar num entrecortar de imagens, depois, tinham de ficar em pé para ver quem suportava mais a embriaguez da infância.
Seria preciso levar Ariana até o balanço, mas ela criara raízes na escada. Estava pensando numa solução quando a irmã mais nova da Ariana se aproximou:
- Vamos brincar, vamos?
A irmã da Ariana era uma das meninas chatas da rua.
- Não quero brincar com você! Disse com a língua para fora tornando a frase quase ininteligível.
A irmã deu de ombros e saiu com suas cinco chupetas: uma no nariz, outra no ouvido, duas na boca e uma pendurada ao pescoço. Ela ainda era muito criança, chupava chupeta. A da menina estava em cima do telhado, pois um dia a Ariana:
- Se a gente jogar nossas chupetas em cima do telhado elas vão ficar lá para sempre e nós vamos ser amigas pra sempre também.
A menina gostou da idéia, e assim o fizeram.Colocaram as duas chupetas dentro de um saquinho, amarraram com uma fitinha cor-de-rosa, deram nós, contaram até três e num ritual muito puro lançaram as doces borrachas ao telhado da menina. Desde aquele dia as duas nunca mais chuparam chupeta, quando a vontade aparecia, logo pensavam que caso pedissem outra chupeta talvez o pacto perderia o valor. Existem coisas com as quais as crianças não brincam. Então, muito de vez em quando, escondidas uma da outra, elas chupavam o dedo.
Agora, Ariana não queria mais brincar, não respondia.Será que estava de mal? Talvez as chupetas não estivessem mais lá, algum bicho poderia ter rasgado o saquinho, talvez as tivesse levado... O coraçãozinho da menina foi ficando apertado:
- Ariana, levanta um pouquinho, vê se o nosso saquinho ainda está lá em cima da minha casa.
Não era uma casa exatamente, era um barraco de madeira com telhas cinzas e onduladas.Ariana morava no céu. Da cozinha se podia ver toda a casa da menina. Era tudo tão alto ou ela é que era tão pequena?
Ariana não se mexeu, a menina sentiu um impulso de subir pelo menos até o meio da escada, onde já se poderia avistar o telhado. Assim, caso as chupetas não estivessem lá o desespero de sua amiga estaria explicado então, era só achar um jeito de resolver. Não teve coragem de subir, pois os gritos a empurravam para baixo. Pareciam vozes de bicho.
A mãe da Ariana chegou do trabalho e perguntou se a filha sentia algo, ao que ela respondeu:
- Ai, minha cabeça!
Então, era isso, era dor de cabeça. A menina já havia sentido dor de cabeça depois de passar o dia todo rodando no balanço, ou depois de assistir muita televisão. Ariana tomou o remédio que sua mãe lhe deu chorou lágrimas constantes e disse:
- Eu quero uma chupeta.
A menina estremeceu.
- Cadê sua chupeta? Perguntou a mãe.
- Eu quero chupeta! Berrou.
Era o fim daquela amizade, Ariana não resistiu, pediu a chupeta. A menina ficou cheia de indignação, pois ela também sentira vontade, mas nunca fraquejou. Sugava o dedo para que a amizade não fosse sugada.
- Onde você enfiou sua chupeta? A mãe de Ariana perguntava.
- Não sei! Ela respondia olhando para menina que imóvel na ponta da escada trazia em seu olhar o despontar úmido da dor.
A avó e a mãe de Ariana procuravam desesperadamente a chupeta, a fim de fazer com que aqueles gritos cessassem. Então, a irmã mais nova surgiu e com ela o pedido:
- Dá uma chupeta pra mim!
- Não, você tem a sua.
- Dá uma chupeta pra mim! Ai, minha cabeça!
Nesse último grito Ariana esmoreceu. Sua mãe chegou a tempo de impedir que ela rolasse da escada. Pegou-a nos braços e saiu em busca de um vizinho que tivesse um carro para levá-la ao médico. A menina correu para casa, subiu até o ponto mais alto do pé de amora que ficava no quintal. Devia existir ali algum galho através do qual ela pudesse alcançar o telhado, pegar a chupeta e dizer para Ariana que não tinha importância, que elas podiam ser amigas mesmo chupando chupeta. Mas não deu, o galho era fino demais, teve medo. Ficou ali no alto do pé de amora, encolhidinha como fruta que não vingou.
Começou a escurecer, sua mãe começou a berrar:
- Ô menina vira-lata, cadê você!
Desceu silenciosa e dolorosamente da árvore na qual ficou a tarde inteira olhando para o telhado. As chupetas ainda estavam lá. Ela estava no alto, Ariana estava no alto. As chupetas não estavam no céu.
No outro dia, logo pela manhã, viu a mãe da Ariana sair chorando de dentro de um carro de polícia.
- Minha filha, minha filhinha! Repetia em prantos.
Depois, chegou um carro com um caixãozinho. Havia muita gente na casa da Ariana. A menina viu sua mãe, que quase nunca chorava, derramar uma lágrima ao pegá-la pela mão e dizer:
- Sabe a Ariana, ela está no céu...
No céu do telhado, do pé de amora ou do alto da escada? Em que céu estaria Ariana? Foi com sua mãe até a casa da amiga e viu o corpinho envolto em flores no meio da sala. Dona Madalena Roleira, que vendia roupas usadas trouxe um vestidinho branco e uma tiara de flores.
- É um anjinho. Disse Madalena.
Num canto da sala a irmãzinha de Ariana chorava e a menina que até agora não havia dito nada se aproximou dizendo com fúria:
- Por que você não deu a chupeta pra ela?
As pessoas em volta tentaram acalmá-la. Ariana chegou ao céu porque a chupeta não alcançou há tempo o céu de sua boca.
Priscila Santos